sábado, 19 de outubro de 2013

VICTOR AMÂNCIO DE FARIA - (43)






 
MILITAR



UM VALOROSO SOLDADO DO BEM.

Natividade da Serra, fundada em 29 de maio de 1853, é um município brasileiro e uma acolhedora cidade do Estado de São Paulo, localizada na Região do Alto Paraíba. Está contida na Microrregião de Paraibuna e Paraitinga e pertence à Mesorregião do Vale do Paraíba Paulista. Tem como municípios limítrofes, Redenção da Serra, São Luiz do Paraitinga, Ubatuba, Caraguatatuba e Paraibuna. Com a construção da barragem de Paraibuna, ocorreram a inundação da antiga e saudosa Natividade e a consequente mudança para outro local, distante aproximadamente um quilômetro. Sua nova fundação data de 13 de agosto de 1973. Entretanto, foi na antiga Natividade da Serra, berço de Cesídio Ambrogi, ilustre professor, poeta e escritor, que a história daquela cidade passou a contar também com outro grande e ilustre filho, Victor Amâncio de Faria.

Nasceu às 05:00 horas, ao alvorecer do dia 26 de fevereiro de 1917, no Bairro do Pedregulho e em pleno verão brasileiro. Seus pais, Joaquim Amâncio de Faria e Cândida Francisca de Faria, naturais de Natividade da Serra, eram pessoas humildes e pequenos lavradores no Bairro do Pedregulho, naquele Município. Victor, como toda criança daquela época, teve uma infância difícil, mas, feliz. Como lavrador, trabalhava e ajudava seu pai na pequena roça que possuíam. E nessa pequena roça eram produzidas as deliciosas rapaduras, que, transportadas em cestos em lombo de burros, eram negociadas depois, no Mercado Municipal de São Luiz do Paraitinga, cidade vizinha. Jovem, veio a conhecer Evarista de Moraes Domiciano, uma moça da mesma cidade, com a qual se casaria após alguns meses de namoro e noivado, tendo contraído matrimônio no dia 18 de julho de 1939, conforme consta em sua Certidão de Casamento de n° 232, de Fls. 112/113, do Livro B-09. 

Mas era preciso prosseguir na longa e difícil caminhada pela sobrevivência. Em 21 de fevereiro de 1942, prestes a completar 25 anos de idade, alistou-se na Força Pública do Estado de São Paulo, como Voluntário e por três anos, nela permanecendo até 06 de março de 1945 quando então solicitou baixa da Corporação. Em 24 de janeiro de 1946, realistou-se na Força Pública e, cumprindo 25 anos de efetivo serviço, aposentou-se em 16 de novembro de 1962, conforme consta no Boletim Geral nº 15, de 22 de janeiro de 1963, tendo se aposentado na graduação de 3º Sargento PM. Em toda sua trajetória militar destacou-se como um soldado de valor, sendo muito dedicado às funções que lhe eram atinentes. Destacou-se com destemor e audácia em suas funções de Soldado da Milícia Bandeirante quando prestou eficientes serviços no Presídio da Ilha Anchieta, no período de 03/01/1949 a 25/10/1950 e de 19/02/1954 a 26/10/1955. 

Adotou o 5º Batalhão de Caçadores de Taubaté, considerado a Unidade Mãe do Vale do Paraíba Paulista, como seu segundo lar. Serviu em várias cidades da região, sempre demonstrando amor à causa pública, como constam  em seu Assentamento Individual o reconhecimento da Corporação, como por exemplo, quando servindo na cidade de São José dos Campos, adotou atitude altamente simpática e honesta ao achar em uma via pública daquela cidade a quantia de trezentos cruzeiros, uma considerável soma à época, e, após tentar encontrar o dono e não conseguindo, entregou-a a uma Instituição de Caridade. Em outra ocorrência na mesma cidade, demonstrando coragem e alto grau de responsabilidade, conseguiu debelar um incêndio que se irrompeu numa Colchoaria, vindo com isso, a salvar e preservar vidas. Fatos dessa natureza elevam o nome da Corporação e dignificam aqueles que afrontam as adversidades e perigos de morte, colocando-se dessa forma, acima da humanidade. Em todos os Comandos pelos quais esteve subordinado, foi alvo de eloquentes elogios pela cooperação prestada, pela boa vontade nas missões que lhe foram confiadas, pela compreensão de seus deveres, pela lealdade e acima de tudo, pelo amor ao trabalho, sendo referência como exemplo digno a ser seguidos pelos companheiros de caserna. 

Na jornada da vida nasceram os filhos que tanto amavam: Benedito, José, Aparecida Célia, Ana e Fátima. Entretanto, em respeito à rotina da vida, viram seus filhos crescerem e se tornarem adultos, e, pouco a pouco, com a alegria de constituírem suas famílias, compartilharam com a tristeza por vê-los saírem, um a um, do aconchego de uma simples, mas feliz morada, pois ali se desenvolveu uma história de muita ternura e afeto. Benedito casou-se com Enedi Aparecida de Andrade, e desse matrimônio nasceram Vólia Patrícia de Andrade Faria e Rômulo de Andrade Faria. Vólia casou-se com Rodolfo José Bastos Vasconcelos, vindo a gerar Alícia Faria Vasconcelos e Driely Faria Vasconcelos. Rômulo casou-se com Morena Locatelli Cursino vindo a gerar as gêmeas  Laura Locatelli Faria e Eloísa Locatelli Faria, dois anjos que vieram abençoar ainda mais um lar unido e feliz. Nasceram no dia 12 de junho de 2014, uma quinta feira do inverno brasileiro e que se tornaram, de imediato, como no Dia dos Namorados, as namoradinhas da Família Faria.


AS MARAVILHAS DIVINAS ELOÍSA E LAURA.
 

José casou-se com Maria de Fátima das Neves, nascendo Ana Paula de Faria. José separou-se. Depois casou-se com Eurides Ferreira de Faria, não ocorrendo geração.  Ana casou-se  com Paulo Gilvandro dos Santos, nascendo Nayra Cristina Faria. Depois casou-se com José Carlos de Paiva Branco, não ocorrendo geração. Aparecida Célia casou-se com José Eriovaldo da Silva, nascendo Vitor Augusto de Faria Silva, Marcus Vinícius de Faria Silva, Ana Cristina da Silva e Natália Augusta da Silva. Marcus Vinícius casou-se com Karen Juliana Aparecida Pereira, nascendo Gabrielle Pereira de Faria. Marcus Vinícius separou-se. Ana Cristina casou-se com Cláudio Martins Pereira, nascendo Vitória Luíza Martins da Silva. Ana separou-se. Vitor Augusto casou-se com Maria Carolina dos Santos, nascendo Maria Clara dos Santos Silva. Vitor separou-se. Natália Augusta é solteira e não ocorreu geração. Aparecida Célia de Faria faleceu aos 28 de julho de 2002. Ana Maria é solteira e não ocorreu geração. Fátima casou-se com Júlio César Machado Santos, e dessa união nasceu Lívia Regina Faria Santos, menor.

Victor Amâncio de Faria faleceu em 15 de agosto de 1994, às 07.30 horas em sua casa, sita à Avenida Andrômeda, nº 1312, Bairro Jardim Satélite, em São José dos Campos. Está sepultado no Cemitério da Paz, Jazigo nº 95, Quadra São Dimas, em São José dos Campos. Seu atestado de óbito de nº 29.600, Fl. 226, Livro C-97, foi assinado pelo Dr. Devaldir Vieira da Silva, atribuindo como causa de sua morte, Adenocarcinoma de pulmão. Requiescat in pace, Valoroso Soldado do Bem!





PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JULIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br 

GARCÍLIO DA COSTA FERREIRA - (42)












MEMÓRIAS INACABADAS






1. FORÇA PÚBLICA, EU TE AMO!



Porque te amo? À resposta, é preciso uma explicação. É necessário voltar os ponteiros do relógio do tempo, ao longínquo 10 de maio de 1935. Nesse dia, por não haver sido chamado a São Paulo onde fiz alistamento, fui ao Instituto Correcional de Taubaté, cidade onde residia e ainda resido, saber na Secretaria se havia alguma notícia sobre o alistamento. E havia: que eu fora alistado no dia 30 de abril de 1935, Bol. Geral nº 96, da mesma data. No mesmo dia tomei uma carona de caminhão e cheguei a São Paulo as 16:00 horas. Expediente encerrado. Sem dinheiro, com os tênis furados  nos dedos, um capote velho e roto, só tive uma alternativa, dormir na mesa de concreto do Jardim da Luz. Meu travesseiro foi um tijolo forrado com o boné, que a Providência Divina me ofertou. Ali passei até o amanhecer do dia 11 de maio de 1935.

Os portões do C.I.M. (Centro de Instrução Militar) estavam abertos e com o vai-e-vem dos soldados também fui. O serviço de alistamento ficava nos fundos, à direita, junto aos muros da Casa de Detenção. O encarregado da seleção era o Aspirante Alfredo Guedes de Souza Figueira. Aguardei a chamada do meu nome, naquela turma de moços, que, como eu, esperava a oportunidade do emprego modesto que nos tirasse da miséria. Depois de várias chamadas ouvi meu nome: Alistado Garcílio da Costa Ferreira! Com a mão no alto me apresentei. Fui levado à presença do Aspirante Guedes, que foi taxativo: Você deveria se apresentar no dia 08 de maio e não 11, portanto, seu alistamento está cancelado. Recebi aquele veredictun, completamente aterrado, com os olhos parados nos olhos daquele homem, que iniciando sua vida como Aspirante a Oficial, não tinha um mínimo de sensibilidade para com aquele moço mal trajado, sem dinheiro ou meios de voltar para Taubaté, onde deixou a pobre velha tia e o irmão desempregado, com três meses de aluguel atrasado. Tomando coragem fiz ver àquele homem a dramática situação em que me encontrava. Não consegui demovê-lo, que, virando-se para o soldado encarregado, determinou: leve esse elemento até o portão da guarda e avise que não o deixe entrar novamente. Acompanhado do soldado fui posto fora do Quartel por ordem daquele homem prepotente e ciente de seu poder de decisão.

Na Rua Jorge Miranda, encostei-me na parede para não cair. Ameaçado de forte tontura, pois nem café havia tomado, refeito, respirando fundo o aroma do Jardim da Luz, dirigi-me em passos cambaleantes até a esquina da Avenida Tiradentes, que contornei. Ali na esquina deparei com uma placa de metal, limpa com Kaol e que se lia "Comando do C.I.M". Completamente aparvalhado subi as escadas e atingi uma área em que havia um banco de madeira, onde sentei, aguardando a chegada de alguém, que logo chegou. Vendo aquele moço de aspecto andrajoso, perguntou o que eu queria, o que respondi, falar como comandante, eu sou de Taubaté e fui apresentado pelo prefeito para verificar praça na Força Pública. Ele me mandou aguardar e desapareceu atrás de uma porta. Minutos depois eu estava na presença do Major Oscar de Melo Gaia. Perguntado o que desejava, respondi que estava me alistando na Força Pública e perdi o prazo de apresentação por não ler jornais ou ser avisado. Cheguei com onze dias de atraso sendo posto fora do Quartel pelo Aspirante Guedes, encarregado do alistamento. 

Fiz ver-lhe que era apresentado pelo Prefeito de Taubaté, José Miliet Filho o que ele disse ser seu amigo. Fiz ver-lhe a situação em que me encontrava, sem meios de retornar a Taubaté e a cada fase ele respondia com o seu tique nervoso, o prefeito é meu amigo, eu fui comandante do 5º B.C. Depois de conversar sobre Taubaté, disse ao ordenança, chame o Aspirante Guedes. Este logo veio e se perfilou ante o chefe, às suas ordens comandante: "Pode resenhar o civil Garcílio, é um caso especial de Taubaté". O Aspirante Guedes lançou um olhar fulminante sobre aquele trapo humano que se encontrava ali e determinou, vamos! No caminho até a Secção de Alistamento me disse: "Você entrou na Força Pública pela porta da bajulação, vai dar um mau soldado". Este foi o primeiro episódio que marcou a minha vida na Força Pública de São Paulo. É por isso que eu te amo Força Pública de São Paulo. Força Pública de Cel. Milton de Freitas Almeida, de Cel. José Lopes da Silva, de Cel. Benedito Elpídio Hidalgo, de Cel. João de Quadros. de Cel. Ernani de Tolosa, de Cel. José Inojosa e tantos outros que só fizeram a grandeza moral de São Paulo. 

E neste rodapé, não poderia deixar de agradecer ao então Major Oscar de Melo Gaia, a situação em que vivo hoje relativamente cômoda pelo simples gesto de me acolher na Força Pública. E, muitos anos depois, já no 5º B.C. de Taubaté, como Cabo da Guarda, recebi a ordem de veladamente e com especial sigilo, observar os movimentos de um certo Coronel que "gozava" férias no Estado Maior do Batalhão. E no dia do teu aniversário, eu repito: Força Pública, eu te amo!

Taubaté, 15 de dezembro de 1996
Garcílio da Costa Ferreira  -  2º Sgtº RE 5.106-2


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2. CARTA A UM AMIGO.
Prezado Cel. Lopes
 Meus respeitos


O telefonema não foi suficiente para externar o meu apreço e os desejos de um feliz aniversário. Quis o destino, Senhor Onipotente, que aquele moço, vindo da região de Queluz, se tornasse soldado da nossa querida Força Pública, e que, pelos caminhos da vida militar, distribuísse a todos, favores e ajuda aos que dele se acercavam. Disse um personagem referindo-se a Newton: "É uma honra para o gênero humano, que tal homem tenha existido". Faço minhas, as suas palavras e atribuo ao prezado chefe e amigo a frase sobre Newton. 

Austregésilo de Athayde, Presidente da Academia Brasileira de Letras, recentemente falecido, dormia em seu bercinho em 31 de dezembro de 1899, e sua mãe o chamou - acorda Austregésilo, o século vinte está chegando! Na chegada do século vinte e um, eu não estarei aqui para chamá-lo, mas, um de seus filhos queridos chegará a sua cama e lhe dirá - acorda papai, o século vinte e um está chegando!

Taubaté, 19 de abril de 1994
Garcílio da Costa Ferreira  -  2º Sgtº RE 5106-2



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  3. A PERGUNTA QUE TODOS QUERIAM FAZER.

São Paulo, 02 de agosto de 1966

Hebe, esta carta é dirigida a você. Tem, entretanto, um destino certo – Fêgo de Camargo. Ela é longa Hebe, é saudosa, diferente de todas as que você tem recebido no decorrer de sua carreira artística. É uma homenagem que faço ao violonista do Cine Polytheama de Taubaté. Quem lhe escreve é um admirador e você me perdoará o tratamento íntimo, pois, você na vida artística para milhares de fãs é assim – Hebe. Quando lhe vejo na TV, digo aos meus companheiros com indisfarçável orgulho: “esta é uma taubateana prata da casa”. Mas, no íntimo Hebe, tenho uma dúvida atroz, que você não seja uma taubateana. Para minha alegria ou tristeza você me dirá se é ou não é. Mas, vamos ao destinatário certo. Eu sou do tempo do cinema mudo em Taubaté, e nosso Fêgo entrava pela porta principal do cinema e percorria o corredor até ao piano com o violino debaixo do braço. Ao piano, já se encontrava Cerina, esperando-o. O homem do rabecão, magrinho e baixinho, não me deixou na memória, hoje cansada, o seu nome.

Havia, se não me engano, outro elemento na orquestra, mas também não me lembro o seu nome. Tudo já vai tão longe, meus cabelos já estão branqueando, mas a memória ainda teima em reter fatos que fazem às vezes, sermos felizes em relembrá-los. Quando Fêgo entrava era um Deus nos acuda. Valia mais a entrada do violonista do que do espetáculo, pois, ele servia com sua presença, para aguçar nossa alegria, pela próxima chegada de Tom Mix, Greta Garbo ou Glória Swanson. Logo após a chegada de Fêgo, a um olhar dele aos outros músicos começava a introdução, só então parava a nossa alegria infernal e o bater dos pés. Fêgo, executada a seguinte música, colhia as palmas de crianças inocentes e de adultos. Parava um pouco para descanso, a expectativa era intensa, os nossos olhos estavam firmes nos músicos e na tela, e a simples sombra do dedo do operador que refletisse na alva tela era para nós, moleques de rua, motivo de transbordante alegria. O baleiro corria os corredores apregoando sua mercadoria “baleiro...baleiro, côco, chocolate e ortelã”. Na rua, à beira da calçada, gritavam “pinhão cozido, 60 por um tostão” ou “amendoim torradinho, quentinho”. Era tudo tão bonito, Hebe, que você não faz ideia. Parecia que o mundo era melhor. A um sinal do maestro Fêgo de Camargo, entrava a segunda parte da orquestra, e, ao terminar a segunda parte. nova gritaria e assovios. Era a satisfação máxima daquele aglomerado de crianças pobres. 

Começava o espetáculo sob o acompanhamento da orquestra, uma música leve ou forte, de acordo com a cena do filme apresentado. Nas gerais, “no galinheiro” como nos chamávamos, era uma gritaria dos infernos, enquanto o revólver do Tom Mix despejava balas, sem precisar carregar a arma – agora é que a gente sabe que revólver só tem seis balas – só o facão do soldado impunha respeito, ele não precisava falar, dar ordens, a presença da farda e do sabre na cinta, era o suficiente. O espetáculo decorria e nos nossos corações infantis pedíamos a Deus – naquele tempo era tudo tão diferente, Hebe – que a sessão não terminasse nunca. Mas terminava. Íamos cada um para sua casa, não sem antes admirar, com água na boca as vitrines de doces da Padaria e Confeitaria Suíça Vitória e muitas vezes nenhum cafezinho, porém, exultantes de satisfação íamos pelas ruas comentando a atuação do “mocinho” e a pouca sorte do “bandido”. Naqueles tempos os filmes educativos, o “bandido” pagava pelo seu crime antes de qualquer vitória concreta. Hoje não, ele só morre ou vai para a cadeia depois que deixa na mente de cada adolescente, este raciocínio: “Ele morreu, mas, aproveitou antes e gozou a vida”.

Mas, deixa prá lá e vamos falar de Fêgo de Camargo. Terminada a sessão vinha com colegas de orquestra para o bate-papo e o cafezinho no “Café Guarany”, de Heitor Sene ou no “Convênio”. Você Hebe, poderá não gostar desta carta - “O que tenho eu com essas antiguidades?” – mas, você já pensou o quanto é querida do público, “Rainha dos Cavalarianos do Regimento Nove de Julho da Força Pública”. Essa simpatia e essa simplicidade que contagiam multidões sabem o que é isso. Houve um programa seu no Dia das Mães que eu chorei quando você recebeu o abraço de gratidão de dona ... Que pena! Não sei o nome dela, mas é esposa de Fêgo e a mãe de Hebe, e basta! Foi uma apoteose aquela festa, como gostei! Eu sempre gosto de festa onde haja ternura e amor. Eu queria que o mundo fosse melhor do que é, que houvesse mais justiça, mais amor, mais igualdade, que os ricos fossem menos poderosos e os pobres menos miseráveis. Já tomei muito seu tempo. Receba, portanto, Hebe, essa carta que é uma homenagem saudosa de um admirador dessa querida família taubateana e quando nos seus programas, lembra de Taubaté, refira-se a nossa terra e a nossa gente. Diga também Hebe, palavras aos internados do "Presídio Militar Romão Gomes" da Força Pública, fãs incondicionais de seus programas. À Fêgo Camargo e Senhora, a você e esposo e ao garoto, um abração taubateano.
                                                                              


TAUBATEANA COM MUITO ORGULHO



Garcílio da Costa Ferreira
 3º Sargento RE 5106-2



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   4. A TÃO AGUARDADA RESPOSTA DE HEBE CAMARGO


São Paulo, 21 de agosto de 1966
Meu caro senhor Garcílio.

Profundamente emocionada respondo a sua cartinha que me sensibilizou de verdade. Eu nem encontro palavras para dizer, depois de tantas coisas bonitas que o senhor me escreveu. Para que fique contente, digo-lhe que sou taubateana, com muito orgulho. Sou da terra do meu pai, de que o senhor tanto fala nesta carta. Ele por certo se lembrará do senhor, quando ler esta. O senhor me proporcionou um enorme prazer e muita alegria, lembrando essas coisas tão interessantes do tempo de sua infância e do meu pai. Ele vem todos os dias em minha casa e juntos vamos ler a sua carta.

Gostei imensamente de ter recebido uma cartinha tão carinhosa, de uma pessoa que foi companheiro de meu pai na juventude e que agora acompanha pela televisão os meus programas, com o mesmo carinho e admiração. Deus lhe pague e lhe dê muita saúde. Queira por favor, transmitir aos seus companheiros o meu abraço e os votos de felicidade. 

Cordialmente, 
Hebe Camargo.



PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br





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domingo, 13 de outubro de 2013

IVAN PAULO DA SILVA (40)


 







 MAESTRO
 




                                                                                                   

Ivan Paulo da Silva, internacionalmente conhecido como Maestro  Carioca,  foi um músico extraordinário, nascido aos 19 de dezembro de 1910 em Taubaté/SP, sendo filho de Eleutério Paulo da Silva e de Cândida Pereira da Silva. Ainda jovem, resolveu seguir carreira militar, alistando-se em 1929 na Força Pública do Estado de São Paulo, atual Polícia Militar, nela permanecendo até 1934, onde, servindo  no Corpo Musical dessa Corporação na Capital Paulista estudou com os maestros Antão Fernandes e Antonio Barbarisco, formando-se em fuga, harmonia e contraponto. Em 1935, sendo possuidor de dons artísticos excepcionais, envereda-se para a arte musical, destacando-se um notável músico, integrando as mais belas orquestras paulistanas como  as de Colúmbia, Otto Wey, José Nicolini, Irmãos Cópia, Luiz Argento e Orlando Ferri, além de brilhante passagem pela Rádio Nacional de São Paulo. Em 1937, como trombonista da orquestra de Léo Peracchi participa pela primeira vez na gravação da música "Gorro de Meia" ao acompanhar o ator, cantor, compositor e radialista brasileiro Silvino Neto, pai do humorista Paulo Silvino. Em 1938, empreendendo nova excursão por Uruguai e Argentina atua com Jardel Jércolis, pai de Jardel Filho, trabalhando em Teatro de Revistas.  Nesse mesmo ano integra a Orquestra Fon-Fon, atuando como trombone hot, acabando por fixar residência na antiga Capital Federal, Rio de Janeiro, onde se aprimora ao receber ensinamentos com o Maestro Paulo Silva. Integrou a geração de músicos que, naquela época, traçou os caminhos da música orquestral do Brasil. Inicialmente foi parte integrante da Orquestra Fon-Fon, do sempre saudoso maestro Otaviano de Assis Romeiro, e, nesse mesmo ano grava nos estúdios da Rádio Tupi a maravilhosa música "A voz do violão", interpretada pelo nada menos "rei da voz" Francisco Alves". 

Foi maestro compositor, arranjador e instrumentista, dentre as várias determinantes de um músico de escol. Regeu as mais importantes orquestras nas emissoras cariocas, Nacional (1943) onde fundou sua Orquestra All Stars, Tupi (1944/1952) e Mayrink Veiga (1954/1956 e 1958/1963), além da Orquestra do Copacabana Pálace. Gravou, entre outras participações com sua orquestra em 15/08/1949, o famoso choro "Apanhei-te cavaquinho" de Ernesto Nazaré. Em 1964 gravou com sua orquestra o álbum "Samba...Oba" com doze músicas inesquecíveis como "Boato", "Chega de saudade", "Samba de uma nota só", "Nega", "Desafinado", "Não tenho lágrimas", "A felicidade", "Chora cavaquinho", "Aquarela do Brasil", "Agora é cinza", "O orvalho vem caindo" e "Se acaso você chegasse", verdadeiras pérolas da música popular brasileira. É autor de várias composições magníficas, dentre elas a de maior sucesso “Voltei ao meu lugar” (choro) uma maravilha de obra. É dele a façanha de descobrir o então jovem e talentoso Raul de Barros, considerado por muitos como um dos maiores trombonistas brasileiros e de encaminhá-lo à Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Convidado que foi pelo Presidente Getúlio Dornelles Vargas para criar o prefixo do noticiário radiofônico Repórter Esso “o primeiro a dar as últimas”, assim procedeu de forma fantástica, noticiário esse que adentrava aos lares brasileiros com as notícias mais sensacionalistas e de última hora nas décadas de 40, 50 e 60. Com execução dele próprio no trombone, com Luciano Perrone na bateria e com Francisco Sérgio e Marino Pissiani nos pistons estava criada a introdução mais famosa do grande noticiário radiofônico brasileiro, com a apresentação de seu locutor Heron Domingues o qual teve seu início em 28/08/1941 e seu encerramento em 31/12/1968, respectivamente em plena 2ª Guerra Mundial e em plena Ditadura Militar. Esse slogan para os saudosistas representa "uma saudade danada e sem fim". 

Teve a grande honra em sua vida artística de fazer duelo de trombones com o maestro Tommy Dorsey durante sua visita ao Brasil, bem como, teve o privilégio e a oportuna lembrança de ser indicado a inserir e simplificar as partituras nas famosas calçadas musicais do bairro de Vila Izabel, berço de grandes artistas, dentre eles, o  eterno Noel Rosa, assim procedendo de maneira magistral.  Dentre suas atividades exerceu as de Diretor Musical da Rádio Tupi do Rio de Janeiro na década de 50, foi fundador da Ordem dos Músicos do Brasil, sendo  filiado ao Sindicato dos Compositores Musicais do Rio de Janeiro com a matrícula nº 517, cujo presidente do referido sindicato à época era Herivelto Martins e sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e  Autores de Músicas - SBACEM. Ivan Paulo da Silva (Maestro Carioca) foi casado em primeiras núpcias com Derna Baroni da Silva com quem teve três filhos, Ivanova Paulo da Silva (falecida), Ivanizete Paulo da Silva e Ivanovich Paulo da Silva e em segunda união com Judith Tomazini Soares, com quem não teve filhos. Ivanovich, grande maestro, arranjador e compositor, está radicado no Rio de Janeiro, sendo o preferido dos grandes nomes da música popular brasileira, estando inserido no contexto do Dicionário Cravo Albin como um dos maiores arranjadores  existentes  até nossos  dias.  

Ivan Paulo da  Silva  faleceu  aos 11/04/1991 no Rio de Janeiro, aos 81 anos e foi sepultado dia 12, uma sexta-feira de outono, no Cemitério São Francisco Xavier, também conhecido como Cemitério do Caju, à Quadra 73-A, Sepultura 1399, onde ali, admiradores, artistas, parentes e amigos, foram prestar a última homenagem àquele que, durante toda sua vida, soube como ninguém transmitir a todos a arte maravilhosa que Deus nos deixou: a música. A Rede Globo de Televisão, através da equipe de reportagem de seu noticiário Globo Cidade esteve presente ao seu funeral. 

A presente homenagem que se lhe presta é para torná-lo perene no rol dos grandes músicos brasileiros, perpetuá-lo dentre os grandes compositores do nosso país e divulgá-lo como filho querido de Taubaté. E, como preito de gratidão, Taubaté, Capital Nacional da Literatura Infantil, cidade que o recebeu de braços abertos e com as bênçãos divinas no crepúsculo da primavera do dia 19/12/1910, homenageou-o através da Lei nº 4681, de 04 de julho de 2012, com o nome de uma de suas ruas, a atual Rua "E" do Loteamento Vista Alegre, passando a denominar-se "Rua Ivan Paulo da Silva (Maestro Carioca) - Compositor". Requiescat in pace, Maestro das Multidões!
 
PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br