segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

MANOEL FREITAS DA SILVA - (55)





RADIALISTA


A ETERNA SAUDADE.


Em meados de 1926, desembarcava no Brasil uma família de imigrantes oriunda do Funchal, a capital da Ilha da Madeira e a mais populosa fora do continente português. Os motivos da vinda para nosso país estavam relacionados às sequelas da 1ª Grande Guerra Mundial e à pandemia da Gripe Espanhola que assolaram todo o continente europeu. Assim, João de Freitas da Silva, sua esposa Jesuína de Freitas Miranda e seu filho Manoel Freitas da Silva depararam com momentos de difícil superação. Entretanto, em razão do perfeito entendimento do idioma, dos usos e dos costumes e da hospitalidade do povo brasileiro iniciaram suas vidas na nova pátria.

Foi um sólido e próspero comerciante, constituindo um ramo de negócio, até então, inusitado em Taubaté, uma fábrica de calçados denominada Calçados Mercúrio, situada na Praça Monsenhor Silva Barros, tendo seu filho Manoel, seu ajudante fiel e dedicado. Tempos depois nasceria Edith Freitas Miranda, a caçula daquela família unida e feliz. Seu filho, Manoel Freitas da Silva, nascido no Funchal aos 07 de fevereiro de 1924, uma quinta feira do inverno europeu, tinha dois anos de idade quando da chegada de sua família ao Continente Sul Americano. Aqui viveu toda sua infância na época de uma Taubaté ainda bucólica, mas, importante para a economia nacional. Estudou até o ginasial, o suficiente para torná-lo um competente radialista e comunicador de primeira grandeza. Coincidentemente, com a proximidade de seu nascimento, a chegada do Rádio ao Brasil em 1922, começava a ser desenhada em sua vida. 


Na Rádio Difusora de Taubaté, a nossa querida e sempre lembrada AM ZYA-8, Manoel Freitas da Silva tornou-se Silva Neto para diferenciar de outros funcionários “Silvas”, e assim iremos tratá-lo em diante. Iniciando suas atividades no início da década de 40 como funcionário subalterno, em curto espaço de tempo e em razão de sua portentosa voz grave, passou a substituir os locutores quando necessário, sendo comum vê-lo alegre e feliz pelas dependências daquela rádio, quando assim procedia. Silva Neto era a dedicação suprema, a voz eloquente e o amor correspondido pela população de Taubaté. Em toda abertura de programa ou quando se dirigia ao público ouvinte o fazia pronunciando a palavra “meu amigo, minha amiga” como a demonstrar uma proximidade afetiva com seus ouvintes. Em suas transmissões, tinha o hábito de bater com as palmas das mãos aos braços como que “abraçando alguém, saudando-o”. Pai extremoso, marido exemplar, disciplinado e disciplinador, leal para com todos, foi uma pessoa íntegra e honesta, e um amigo sempre presente em todas as circunstâncias da vida.


Marcou época de glórias em sua vida dedicada ao rádio em várias ocasiões, dentre elas ao ter aprovado sob sua responsabilidade, Cid Moreira, como locutor da Rádio Difusora, mais tarde o grande apresentador do Jornal Nacional da TV Globo, bem como quando de seu Programa “Clube do Guri” ter apresentado e ser testemunha do surgimento da Rainha do Rock brasileiro, Celly Campello, a "Namoradinha de Taubaté". Mas, foi em “Notícias do Dia” da sua querida Rádio Difusora e a razão de sua vida, a sua consagração como radialista, onde, por mais de vinte anos adentrou aos lares de todo o Brasil com sua voz inesquecível e um jornalismo sério. Jamais teve o ilusório propósito de figurar na galeria de beneméritos, distanciando-se das bajulações. Silva Neto foi casado com Helena Piccini Freitas da Silva, com quem teve quatro filhos, Sônia, Lúcia, Carmem e João de Freitas da Silva Neto, seus grandes amores. 


No dia 19 de maio de 2008, Taubaté foi surpreendida com a notícia de seu falecimento. Seus lábios se emudeceram e sua voz calou-se para sempre, deixando uma lacuna imensa tanto nos meios de comunicação quanto em nossas vidas, e um rastro de saudade, que somente o tempo, esse julgador imperecível, saberá mantê-lo vivo em nossas memórias. Está sepultado no Cemitério da Venerável Ordem Terceira, anexo do Convento de Santa Clara, em Taubaté-SP. Requiescat in pace, Radialista da Saudade!






PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br

sábado, 28 de dezembro de 2013

LEVY BRETTERICK - (53)







        
JORNALISTA


UM CERTO SENHOR FREITAS.

Uma figura esguia, respeitável, trajando roupas escuras, as mais das vezes. Parecia personagem saída das páginas de livros de Charles Dickens ou de Eça de Queiroz. Fazia sentido. Afinal, ele descendia de família portuguesa, cujos usos e costumes, bem assimilados, reproduziam em Taubaté. Era assim o senhor Freitas, funcionário aposentado da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e proprietário de uma pequena chácara na Rua Francisco Eugênio de Toledo (antiga Avenida nº 1), com fundos para a Avenida Três Meninas (antiga Avenida nº 2) e ladeada, à esquerda, pela Rua Edmundo Morewood, e à direita, com pequeno grupo de casas que faziam frente para a atual Avenida Charles Schneider, na época, até 1951, leito da antiga Estrada de Rodagem São Paulo-Rio. 

Nos anos 30 do século passado, quando o conheci, o senhor Freitas cuidava da chácara e da família com o maior carinho. Diziam que ele às vezes chegava até ao exagero para manter a disciplina. Os muros da chácara eram de taipa e muito bem vigiados. Um apelo vigoroso, feito aos arquivos de uma memória desgastada pela passagem de muitas décadas, traz de volta pálidos contornos de um tempo bucólico, bem diferente das correrias deste século 21. Retirada a mortalha do tempo, volto a deparar com a figura esquia do senhor Freitas no cultivo das frutas e hortaliças que preenchiam o vazio da existência do velho ferroviário aposentado. Do seu clã, que não era tão pequeno, tenho algumas lembranças de seus filhos Amantino, Neco, Maria, Paulo, João e Antoninho. O filho mais velho, Amantino, era identificado pela sua “pinta de galã” muito cobiçado pelas moças trabalhadoras da CTI nas idas e vindas diárias do batente, quando necessariamente passavam diante da propriedade dos Freitas. O assédio, porém, era inútil, até porque o “príncipe encantado”, ao invés de aceder, tomava razoável distância das fãs proletárias. 

O Manoel, o Neco para os mais íntimos, era ajuizado, circunspecto e sempre consciente do respeito que lhe devotavam os irmãos e amigos da vizinhança. Antoninho tinha um bom caráter e sua figura esguia representava segurança, proteção e amizade para toda a garotada do bairro. Tenho lembranças do Paulo e do João Freitas – lembranças que se alternam com recordações das laranjas, mangas e cajus da chácara. Por último, com respeito e saudade, falo de Maria Freitas, sempre zelosa com a família, zelosa e protetora, sem perda da simpatia e da consideração. Volto a falar do velho Freitas, o amigo e freguês do seu Pedro Lemes, dono do armazém “O Sol nasce para todos”, que ficava na antiga Rua da Estiva, hoje Rua Isaltina Ribeiro. Dava gosto vê-los discutir, às vezes acirradamente, sobre custo e preço dos alimentos.
Taubaté, 21 de novembro de 2012.
Levy Bretterick

Nota: Este depoimento do jornalista Levy Bretterick atendeu a um pedido formulado por este professor, acerca das origens de minha família, os Costa Ferreira. Graças ao seu persistente garimpo de uma memória de quase nove décadas, foi possível transportar das lembranças infindas e oportunas um pouco do resgate histórico da Família Costa Ferreira. Receba, Levy nossa eterna gratidão.

UMA VIDA DE PRINCÍPIOS.


21 de novembro de 2012! Nesse dia em que comemorou seus oitenta e oito anos de vida, Levy Breterick teve motivos de sobra para festejá-lo. Cidadão honrado e respeitado por todos, pai extremado, ótimo marido, jornalista capaz como poucos. Conheci-o na década de 70, porém, é da década de 30 seu relacionamento com minha família, os Costa Ferreira. Levy é daqueles amigos difíceis de encontrar. Inteligente, perspicaz, dotado de uma bondade infinita, companheiro nas horas de difíceis soluções.
Os oitenta e oito anos dedicados a Taubaté, não serão possíveis pronunciá-los como deveriam sê-los, pois, sempre se omitirão alguns de seus contributos à nossa gente. Portanto, é melhor deixar que a consciência de cada cidadão taubateano se deixe manifestar e que o tempo, julgador imperecível de todas as coisas se encarregue de inseri-lo no rol dos grandes nomes de nossa imprensa. Deixo, entretanto, aqui nesta oportuna lembrança natalícia, todo meu respeito ao homem, toda minha admiração ao jornalista competente que é, todo o agradecimento pelo muito que fez pela Taubaté querida e pelo amor que soube distribuir, como poucos, a todos que lhe foram caros. Receba Levy, nesta passagem de mais uma primavera, muita felicidade, muita saúde e muita paz nesse coração maravilhoso. Deus o abençoe.



PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br




sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O INCÊNDIO E A VISÃO DO INFERNO - (52)





CASA DE CUSTÓDIA E TRATAMENTO DE TAUBATE - CCTT
(PRESOS CALCINADOS DO PAVILHÃO ALCÂNTARA MACHADO)



O INCÊNDIO E A VISÃO DO INFERNO.


Cinquenta e dois anos decorridos da maior ocorrência já registrada na história da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, ainda estão presentes em nossa memória os momentos de angústia e de desespero que se desenvolveram naquele dia. Era o crepúsculo do dia 14 de agosto de 1961, uma segunda feira seguinte ao Dia dos Pais e em pleno inverno brasileiro. Naquele dia, encontrando-me na esquina do Ginásio do Estado, o sempre querido Estadão, visualizei uma gigantesca fumaça que surgia nos céus de Taubaté como que anunciando uma iminente tragédia. Eram aproximadamente 17.40 horas. Momentos depois, aquela fumaça de proporção jamais vista logo seria notícia em todos os lugares da bucólica Taubaté. Policiais do 5º Batalhão, atual 5º BPM/I, que deixavam seus serviços naquele momento, policiais de folga naquele dia, bombeiros da Willys Overland e muitos abnegados pela causa pública, acorreram ao local e se apresentaram para ajudar no que fosse possível. O tirocínio policial do Sargento Edson Lopes Pestana, Comandante da Guarda do Presídio, em adotar medidas urgentes como a de não entrar com sua guarnição no pátio interno, foi de fundamental importância para que não ocorresse a fuga em massa, bem como evitado o extermínio de toda sua guarnição. Ficou do lado de fora com sua tropa cercando o Presídio e aguardando reforço policial. Atitude perfeitamente entendida, pois, era estratégia dos amotinados que com a entrada da guarnição, sensibilizada pelo desespero e sofrimento dos presos para abertura dos pavilhões incendiados, todos os militares fossem mortos.
Entretanto, com a chegada de reforços foi possível adentrar ao interior do presídio e constatar que o Pavilhão Alcântara Machado estava totalmente em chamas e com cinquenta e dois detentos em estado desesperador e sem condições de fuga, pois, haviam colocado fogo nos colchões na entrada da cela. Diante de tal quadro o Major Paulo Vianna determinou uma abertura na parede daquele Pavilhão. O Soldado Brasil Natalino imediatamente tentou com outros policiais colocar em movimento um trator existente nas imediações, entretanto, o motor não funcionou. De maneira resoluta, o soldado Brasil Natalino e o guarda de presídio Rubens de Oliveira, com o auxílio de picaretas iniciaram abrir um buraco na parede, a qual, da largura de um tijolo e meio e construída por argamassa de cimento e areia, tornara-se quase impossível sua demolição parcial. Mas, determinados pelo cumprimento do dever e até seu esgotamento físico por completo, conseguiram seus intentos revezando-se, e, contando com a participação de outros policiais, lograram êxito em seus objetivos. Imediatamente, os policiais Cabo Acidino e Soldado Milton Ribeiro adentraram naquele Pavilhão, tidos pelos presos que se salvaram como “A Visão do Inferno”. Dos cinquenta e dois detentos que ali se encontravam, quarenta viriam a falecer no local e dois, posteriormente, faleceriam no hospital Santa Isabel, perfazendo um total de 42 vítimas fatais. Os trabalhos para a identificação dos cadáveres através das arcadas dentárias foram realizados pelo Dr. Nivaldo Zollner, que prontamente se apresentou como voluntário. Diversos policiais do 5º Batalhão se apresentaram para o cumprimento de tão árdua missão, entretanto, alguns se sobressaíram, como os Sargentos Edson Lopes Pestana e Florival Pimentel de Araújo, Cabos Acidino dos Santos e Wilson Estevan Vicente, e, os Soldados Milton Ribeiro, Brasil Natalino, José Nadir Pereira e João Felipe Bosco.
Há de se destacar a eficiente e pronta intervenção do Sargento Edson Lopes Pestana e do Soldado João Felipe Bosco, pois, ao irromper do incêndio, atiraram bombas de efeito moral à galeria de entrada para os pavilhões, impedindo dessa maneira, a fuga em massa. Foi uma medida resoluta e de resultados gigantescos até a chegada do reforço do Batalhão,  pois, dessa forma evitou-se, em detrimento de outros, vidas preciosas de cidadãos de bem. O Cabo Acidino dos Santos e o Soldado Milton Ribeiro, foram promovidos por Ato de Bravura respectivamente a 3º Sargento e a Cabo. 
Ao final da tragédia, os detentos Agenor Rebelo, Alcides Alves, Altino Leite, Álvaro Nascimento, Antonio dos Santos, Ariovaldo Rodrigues dos Santos, Benedito Antonio, Benedito dos Santos, Carlos de Oliveira, Clemente Caruso, Gênio Antonio dos Santos, Djalma Batista de Oliveira, Geraldo Antonio de Oliveira, Geraldo de Souza, Geraldo Francisco de Oliveira, Gilberto Guedes da Silva, Irineu José da Silva, João Chaves de Oliveira Filho, José de Melo, José Filizola, José Francisco de Oliveira, José Nascimento, José Nei Santana, José Ramos da Silva, José Ribeiro da Silva, Juventil Barbosa, Luís de Andrade, Manuel Machado, Mario dos Santos, Mário Tang, Maximiano Belo Filho, Osvaldo Giglioti, Osvaldo Soares, Paulo Pinto Ramalho, Pedro Rodrigues dos Santos, Sérgio Alves, Silvino Gabriel da Silva, Valdemar de Souza Conceição ou Antonio Martins, Valdomiro de Souza Filho, Vicente de Paula Gutierrez, estavam mortos. Os líderes da rebelião Ambrósio Caetano do Prado, Alcides Teófilo (Meia-Noite), Roberto Naves Romeu, Reinaldo Soares (Alemão), Benedito de Paula (Caveira) e Anorelino Soares (Capitão Sujeira), eram egressos do Presídio da Ilha Anchieta e foram transferidos para a Penitenciária de São Paulo. 

Toda a história sobre o motim incendiário da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté está exposta no Memorial General Salgado do Quinto Batalhão de Polícia Militar do Interior. Aos heróis que ainda nos contemplam com suas vidas, os agradecimentos perenes de toda a população da Taubaté querida, pelo alto valor de solidariedade, pelo altruísmo e pelo amor dedicado à causa pública. Aos heróis que partiram desta vida, o reconhecimento pela maneira destemida com que agiram e a gratidão daqueles que souberam entender o verdadeiro valor de um funcionário do povo, quando, obedecer é tão nobre quanto comandar. 
Requiescat In Pace, Heróis para sempre!

PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.  
cfgilberto@yahoo.com.br