quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

YVES RUDNER SCHMIDT




MAESTRO




UM MAESTRO DE PRIMEIRA GRANDEZA


Yves Rudner Schmidt nasceu em Taubaté-SP, aos 09 de junho de 1933, sendo filho de Ulysses Carlos Schmidt e de Lydia Rudner Schmidt. De uma família composta por seis irmãos, a saber, Thereza Yanesse Rudner Schmidt Cardozo, Yves Rudner Schmidt, Yancey Carlos Rudner Schmidt, Yeda Maria Rudner Schmidt, Yradier José Rudner Schmidt e Yamar Luiz Rudner Schmidt, todos naturais de Taubaté-SP, sendo que apenas Thereza e Yves, nasceram na Rua Visconde do Rio Branco, atual 490, e os demais irmãos na Rua Engenheiro Fernando de Mattos. Seus pendores artísticos se fizeram notar ainda criança com apenas nove anos de idade, quando se apresentou no Primeiro Recital de Piano Público, realizado no Taubaté Contry Club. Ali estava desenhada toda uma carreira futurística e artística daquele menino loirinho e taubateaninho notável, que, no decorrer de toda trajetória cultural jamais negou suas origens de homem do interior, muito pelo contrário, propagaria a terra de Monteiro Lobato em todos os lugares por onde se apresentaria. Em 1946, com treze anos de idade, compôs de sua autoria, uma valsinha para piano. Seu talento era demasiadamente grande para permanecer em sua terra natal, pois, esta não possuía um Conservatório, daí resultando sua ida para a Capital do Estado com a finalidade de aperfeiçoar-se em música e, mais tarde, com a consequente preparação para o vestibular no Conservatório. Em 1949, após completar os estudos que se faziam necessários, presta exames de seleção e obtém aprovação para o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Sua consagração maior seria coroada de pleno êxito com a formatura acadêmica no histórico e glorioso Teatro Municipal de São Paulo. Tendo o idealismo e o empreendedorismo como razão de sua magnitude cultural, funda a Associação Brasileira de Jovens Compositores em São Paulo, da qual foi seu Diretor. 

Prosseguindo a deslumbrante carreira que escolhera, é convidado a fazer trilhas sonoras para películas cinematográficas e peças teatrais, tendo realizado inúmeras composições entre os anos de 1952 e 1956. Em 1953, é formulado um convite por seu primo Afonso Schmidt (Cubatão, 29 de junho de 1890 – São Paulo, 03 de abril de 1964) escritor de renome, jornalista, dramaturgo e ativista anarquista brasileiro, oferecendo-lhe uma bolsa de estudo na União Soviética (Rússia), entretanto, Yves Rudner Schmidt não aceitou, tendo em vista a obrigatoriedade de se filiar ao Partido Comunista. Nesse mesmo ano é premiado com a Medalha de Ouro, por ter conseguido o primeiro lugar no concurso de piano dos formandos do Curso de Virtuosidade (Concertista) do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Quando de sua formatura do Curso de Concertista do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, realizado no Teatro de Cultura Artística, executa o Concerto em Do Maior, de Bach-Boskoff. Também em 1953, forma-se pelo Conservatório Paulista de  Canto Orfeônico. Em maio de 1955, lhe é outorgado o Diploma Honorífico de Membro Correspondente do Archivo General de 1ª Música Nacional de Buenos Aires-Argentina. Sua primeira apresentação pública no exterior ocorre na Rádio El Mundo de Buenos Aires, Argentina, alcançando grande sucesso e repercussão. Em 08 de novembro de 1956, assumiu pela primeira vez a direção da Orquestra Sinfônica de Taubaté, em substituição ao maestro Carlos Norberto Aliandro, que adoecera. A apresentação teve como palco o Teatro Metrópole de Taubaté e com a finalidade de compor o espetáculo de ballet dirigido pela bailarina Myrian Hirst. Nessa noite de gala estariam presentes dentre as bailarinas, sua irmã Yeda Schmidt, bem como Célia Benelli Campello, a nossa querida Celly Campello, que já nessa época se apresentava cantando na Rádio Cacique de Taubaté e que mais tarde seria considerada a Rainha do Rock. Maestro Yves, nessa ocasião, apresentou composições de sua autoria. Foi uma apresentação impecável para uma noite memorável.

Em 1958, os Irmãos Vitale Editores S/A, de São Paulo, editaram as composições para piano intituladas “Dois Ponteios”, as quais seriam as primeiras de uma série de mais de cem outras composições impressas. No dia 29 de agosto de 1958 seu valor como músico começa a ganhar corpo e reconhecimento, quando recebeu a Medalha Sylvio Romero pela Secretaria Geral da Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro, por ocasião das comemorações do 10º aniversário da Comissão Nacional de Folclore. Nesta área, Yves teve participação decisiva e importantíssima, exercendo papel de destaque como Membro da Comissão Paulista de Folclore, do Centro de Pesquisas Folclóricas Mário de Andrade. Compôs inúmeras peças, defendeu teses e publicou livros, sobressaindo-se nas pesquisas de campo propriamente ditas, ao lado de personagens ilustres como Rossini Tavares de Lima, Renato Almeida, César Guerra Peixe, Hernani Donato, Laura Della Mônica, dentre outros nomes de relevância do nosso Folclore. Em 1959, o Brasil lamentava sua ida para o Exterior, mais precisamente para a Alemanha, entretanto, louvava-o pela iniciativa e augurava-lhe toda a ventura deste mundo, tendo em vista seu objetivo de aperfeiçoamento musical, lá permanecendo por três anos. O mais louvável feito em toda sua carreira de pianista e compositor foi que em todos os momentos por ocasião de seus recitais, palestras, entrevistas para emissoras de rádio e televisão, centros culturais ou debates, somente os fazia quando se tratasse de abordar qualquer tema sobre música brasileira, portando-se como um verdadeiro representante das raízes culturais de seu povo. Um diplomata por excelência. Seu primeiro recital público na Alemanha teve como palco o Salão Nobre do Hotel Alster-Hof de Hamburgo, totalmente lotado e com as presenças dos Cônsules do Brasil e de Portugal.

Em 1960, ainda na Alemanha, passou a freqüentar o Curso de Piano no Klaersches Konservatórium der Musik de Hamburgo, com a direção de Manfred Mentzel. Seu segundo e mais importante recital na Alemanha ocorreu em 09 de junho de 1960, dia de seu aniversário de 33 anos, na cidade de Hamburgo, tendo se apresentado na Ibero-Amérika Haus. Nessa oportunidade, difundindo nossa cultura, expôs artigos típicos e folclóricos do nosso país. Sua diversidade musical alcançou destaques mais significativos, como as apresentações nesse mesmo ano em Haia, Amsterdan e Roterdan, na Holanda. Na Floriade de Haia (um parque magnífico, onde o setor de horticultura holandês apresenta suas últimas tendências e avanços para o resto do mundo), quando de sua apresentação, teve a honra de ser cumprimentado pela Rainha Juliana, da Holanda. Ainda em 1960, apresentou-se em França-Paris. Seu recital tendo como palco na Maison Du Brésil (Citê Universitaire), contou com a presença marcante do musicólogo e folclorista brasileiro Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, representante do Brasil na Divisão de Música da União Pan Americana em Washington e, mais tarde, no Comissariado de Música da UNESCO, sendo autor de uma obra rara denominada “150 anos de música no Brasil” (1800-1950) e editada em 1956. Com uma abnegação a toda prova e um amor de corpo e alma pela cultura brasileira, vem a programar em 1960 pela Rádio Difusion e Tv Française, em Paris, músicas de sua autoria constantes de seu long play “Se a Cidade Contasse...”, no Programa Cruzeiro do Sul. Em 1961, manteve contato com o Carl Orff, compositor alemão e um dos mais destacados do século XX, famoso sobretudo por sua cantata Carmina Burana. Ainda nesse ano, seria testemunha ocular da história, ao presenciar para sua grande tristeza a construção do “Muro de Berlin”. Esse muro, além de dividir a cidade de Berlin ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: de um lado a República Federal da Alemanha (RFA), que era constituída pelos Países Capitalistas liderados pelos Estados Unidos; de outro, a República Democrática Alemã (RDA), constituída pelos países socialistas e simpatizantes do regime totalitário soviético.
Isso veio a motivá-lo a compor “Die Mauer” (O Muro), primeiramente para o piano e depois com orquestração, composição essa que faz parte da “Série Impressões Européias”, editada em um Álbum pela Ricordi Brasileira, São Paulo. Em 1962 podemos afirmar que foi um ano muito proveitoso e de enriquecimento cultural para a carreira que abraçou. Foram várias participações importantes do decorrer desse ano, dentre elas, o Certificado de Frequência do Curso “A Música em Nosso Século” pela Hamburger Volkshochschule (Alemanha), ministrado pela Professora Friedel Hollern; Recebeu Bolsa de Estudos pela Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa- Portugal, sobre estudos da relação musical folclórica entre a música do Brasil e de Portugal, tendo como orientadores os maestros Fernando Lopes Graça e Vergílio Pereira, bem como a participação do Dr. Jorge Dias. Na mesma Lisboa e também pela mesma Fundação, freqüentou o Curso de “Evolução da Música Culta no Brasil”, curso esse ministrado pelo musicólogo alemão-uruguaio Francisco Curt Lange; Ainda em Portugal freqüentou o Musical de Férias em Costa do Sol, no Estoril, sendo orientado por Alexandre Pitanic, de Salzburg-Áustria com ênfase em Direção de Orquestra, e, Jorge Croner de Vasconcelos. Em 1963 vem a lançar seu primeiro livro intitulado “Brasil – Folclore Para Turistas” pela Editora Áquila S/A de São Paulo sob a direção do Profº José Júlio Stateri. Esse livro foi lançado visando os Jogos Pan-Americanos de São Paulo, tendo sua tiragem se esgotado rapidamente, devido sua preciosidade de informações. Sua tão esperada volta ao Brasil ocorreu no ano de 1964, ano esse marcado pelo governo militar na luta contra o terrorismo. Em seu país de origem teve todo o reconhecimento que podia ser oferecido a um maestro de primeira grandeza, sendo nomeado Professor Catedrático de Piano para o Conservatório Dramático e Musical Dr. Carlos de Campos, de Tatuí-SP, nomeação essa conferida a nível estadual. Nessa Escola de referência nacional, também fez parte do Conselho Administrativo e do Forum da mesma. Em 19 de dezembro de 1964, em noite de gala no Rio de Janeiro, teve pelo consagrado Ballet de Meudes (Stamato), suas composições apresentadas no Teatro Municipal, sob a regência do maestro Max Kreiter e ao piano Kátia Stamato Meneses. Em 1968, apresentou recital e entrevista na Rádio Ministério da Educação e TV Educativa e Cultural de Lima-Peru. Nesse mesmo ano, também se apresentou e foi entrevistado pelo Canal 2 para o programa de Renny Ottolina (televisão) de Caracas-Venezela, oportunidade em que foi contemplado com o maior cachê pago no exterior. 

Em 1976 teve seu nome lembrado na Revista “A Arte Brasileira” do Ministério das Relações Exteriores, pelo Setor “Música Para Todas as Embaixadas e Consulados do Brasil”. Em 1977 teve suas composições apresentadas na Exposição de Música Contemporânea Brasileira na Embaixada do Brasil em Tóquio-Japão, o mesmo ocorrendo na Embaixada Brasileira em Ottawa-Canadá, por iniciativa do compositor Luiz Carlos Vinholes. Também nesse mesmo ano, foi mencionado no “Catálogo Partiture” do Instituto Ítalo Latino Americano do Centro de Documentazione de Roma-Itália, bem como no International Who/s Who in Music and Musicians Directory-International Biographical Center-Cambridge-Inglaterra. Em janeiro de 1978 frequentou na Universidad de Chile, em Santiago, o Curso Nietzche y Wagner, curso esse ministrado pelo compositor Domingo Santa Cruz Wilson. Em 1979 novamente foi mencionado em “The Piano Quarterly” em Composições Representativas para piano de compositores brasileiros de New York-USA. Em 1980 tornou-se membro da Internationale Organization Fur Volkskunst de Viena-Áustria. Ainda nesse mesmo ano algumas de suas composições para piano fizeram parte de um importante concurso intitulado “klavierwelttbewerb brasilianishe musik dês 20 jahrhunderts” da mesma Escola Superior de Música de Viena-Áustria. Em 1984 tem seu nome lembrado pelo Conservatório Musical Souza Lima, em São Paulo, com a inauguração do Museu Folclórico Yves Rudner Schmidt em sua homenagem. Em 1995 apresentou-se no Konservatuvari Medere-Mimar Sinan Oniversitesi em Istambul-Turquia, com recepção pelo Diretor Profº Nuri Jyicil e dos compositores Cengiz Tanc e Ilhan Usmanbaç, recepção essa digna para um maestro de tamanha projeção e importância para cultura musical. Em 1996 suas composições fizeram parte no Festival “Musik Abad Ke 20an” em Devan-Budaya, na Universiti SAIA Malaysia, na Malásia. Em 1998 com regência do Maestro Samuel Kerr, o Coral Lírico Paulistano apresentou composições de sua autoria sobre poesias de Paulo Eiró, no Teatro Municipal de São Paulo. Em 1999 quis o destino e por bênçãos de Deus que sua última apresentação tivesse como palco sua cidade natal, quando executou “Estudos transcendentais” de Francisco Mignone. Essa apresentação ocorreu no Espaço Cultural Mestre Justino. Em 2002 foi eleito Membro Efetivo na Academia Taubateana de Letras, sendo-lhe conferida a Cadeira de nº 16, cujo Patrono é Monsenhor Antonio Nascimento Castro. 


Em 2003 receberia aquela que é considerada a mais alta condecoração do Município, a Comenda Jacques Félix, outorgada a personalidades que elevam e dignificam o nome da cidade de Taubaté. Em 2004 a Orquestra do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, sob a regência do Maestro Ricardo Rossetto Mielli, apresenta composições de sua autoria na Capital Paulista, nos Teatros São Pedro e Sérgio Cardoso, no Memorial da América Latina, no Mosteiro da Luz, na Assembléia Legislativa do Estado, na Catedral da Sé, na Sala São Paulo, dentre outros. Em 2010, a cidade de Taubaté, a Prefeitura Municipal através de sua Diretora Ana Lourdes Candelária de Mattos, nossa querida e eterna “Duda” e com organização e montagem pelo artista plástico Márcio Gotard, inauguraria o Museu Yves Rudner Schmidt no Centro Cultural Municipal, com miniaturas de pianos que ao longo de sua vida adquiriu, procurando dessa forma transmitir e propiciar às gerações vindouras a beleza de uma vida voltada para a Arte Divina que Deus nos deixou: A Música. Em 24 de maio de 2013, a Academia Taubateana de Letras o empossou como Acadêmico Honorário, cujo Patrono é Gastão Schmidt.



OBRAS LITERÁRIAS PUBLICADAS PELO AUTOR
01. Brasil, Folclore Para Turistas, Edição 1963;
02.  Folclore Bras. Para Flauta Doce e Textos, Ed. 1977, I. Vitale  Edit.São Paulo;
03.   Folclore Pta. Para Flauta Doce e Texto, Edição 1978, I. Vitale Edit. São Paulo;
04.   Novo Mét. Para Piano (Revisão), de A. Schmoll, 5 vol. I.Vitale Edit.São Paulo;
05.   Mét. Completo de Div. Mus. (Ampl. e Rev.de Bona), I.Vitale Edit. São Paulo;
06.  A Mús. em S.P. Nos Séc. 17 e 18, Jorn. da Mús. I.Vitale Ed. Ano 5, nºs   24 e 25, Ed. 1981;
07.  Nosso Folclore, Minha Mús. (Part.), em “Antologia de Folcl. Bras.”, de Américo Pellegrini
   Filho,  Editora   Edart,  S. Paulo,  Edição  1982;
08.   Participação nas Coletâneas da Acad. Taubateana de Letras,  nºs I, V e VII;
09.   Revivendo Taubaté, I Tomo, Edição 2000;
10.   Revivendo Taubaté, II Tomo, Edição 2002;
11.   Te Deum Laudamus em Taubaté, Edição 2002;
12.   Os Germânicos em Taubaté, Edição 2002;
13.   Cartas para um Músico, Edição de 2003;
14.   Exaltação ao Mons. Antonio Nascimento Castro, Edição 2003;
15.   Revivendo Taubaté, III Tomo, Edição 2004;
16.   Portais de Taubaté, Edição 2004;
17.   Lydia Rudner Schmidt (Uma Vida), Edição 2004;
18.   A Municipalidade e Eu, Edição 2005;
19.   Taubaté em Foco, Tomo I, Edição 2005;
20.   Minha Música no Paraná, Edição 2006;
21.   Lyricas Taubateenses, Tomo I, Edição 2006;
22.   Lyricas Taubateenses, Tomo II, Edição 2007;
23.   Lyricas Taubateenses, Tomo III, Edição 2007;
24.   Lobato em Minha Música, Edição 2007;
25.   Folclore (vivência, Estudo, Transmissão), Edição 2007;
26.   O Velho Theatro São João de Taubaté, Edição 2008;
27.   História da Música Erudita em Taubaté, Edição 2008;
28.   Taubaté em Foco, Tomo II, Edição 2010;
29.   História da Música Erudita em Taubaté, Edição 2012;
30.  Esses Taubateanos Incríveis, Edição 2012.


PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br

LAURA DOS SANTOS FARIA (19)









L
AURINHA, UM ANJO ENTRE NÓS.





A memória, segundo Max Nordau, é determinada pela fixação de uma gota de sangue nas células cerebrais. Despertada a atenção do indivíduo por um dos sentidos, sobe essa gota de sangue por um filamento nervoso e vai colocar-se na célula correspondente. Mais tarde, toda vez que uma sensação idêntica ferir esse nervo, a memória evocará o fato anterior, de modo que, enquanto essa gota de sangue não secar, restará no cérebro, a lembrança do acontecimento que a determinou. Dessa forma, para dar seguimento ao que proponho expor adiante, não poderia deixar de citar essa importante conclusão de Max Nordau. Como escritor e afeito a escrever sobre biografias, algumas delas relacionadas às pessoas que permanecem junto ao nosso convívio, outras por conhecimentos de bancos acadêmicos, outras ainda que partiram desta vida mas deixaram perpetuadas passagens positivas e perenes, é que meus pensamentos, dirigidos por aquela gota de sangue me fizeram retroceder ao tempo e rebuscar nas prateleiras empoeiradas de meu cérebro, algo maravilhoso. 
Nesta data, 27 de maio de 2013, por volta de 15.00 h, quando coordenava e fazia uso de minha biblioteca, fui movido por uma força estranha e superior e levado de imediato à lembrança do nome de uma criança, que, pelos desígnios do Criador, fora arrebatada de seus pais num momento que julgara ser o correto. Seu nome, Laura dos Santos Faria. Para nós, Laurinha, um anjo que já existia mesmo antes de nascer. Por muito curto espaço de tempo, não tive a felicidade de conhecê-la em vida. Também, não tive conhecimento de seu passamento em virtude de não conhecer seus familiares, o que ocorreu somente em julho de 2002. Entretanto, pude conhecer um pouco sobre esse anjo com o passar do tempo e do contato com seus pais, meus grandes amigos Faria e Marizilda, solidamente compostos como família, bem como de sua irmã Andrezza, uma fisioterapeuta de escol, competente, educada e meiga. Laurinha nasceu aos 14 de fevereiro de 1997, uma sexta feira pós-carnaval e em pleno verão brasileiro. Chegou a este mundo físico para alegria de seus pais Faria e Marizilda e de sua irmã Andrezza, a “Dedei” de sua vida, e para completar uma família muito unida e feliz. Com três aninhos de vida começou sua vida escolar e quando sua mãe a deixava com as “tias”, mesmo para um pequeno espaço de tempo, a separação tornava-se algo impiedoso e sofrido. Deixá-la ali, mesmo com todo o carinho e cuidado, em sua consciência significava que a estava abandonando. Laurinha gostava muito de desenhar, e, “arte” para ela estava sempre relacionada às imagens de pessoas e animais. 
Quando Laurinha passou a acompanhar sua mamãe pelas ruas centrais de Taubaté, e quando do encontro com pessoas pobres e seus filhinhos que esmolavam na Praça Dom Epaminondas, já despertava atenção ao querer brincar com aquelas criancinhas, todas mal vestidas, muito sujas, com aparência de crianças famintas, entretanto, muito parecidas com as mesmas criancinhas de Jesus Nazareno. Era a companheirinha de sua mamãe aos sábados pela manhã, quando costumava carregar moedinhas para presentear aos desafortunados e miseráveis desta vida, bem como pedia para sua mamãe levar uma vovozinha que ali vivia, para sua casa a fim de tirá-la das ruas e tratá-la. Somente um coração de mãe poderia perceber e sentir que Laurinha viera a este mundo para ser portadora de um dom tão difícil de entendermos e praticarmos, mas que para ela significava a razão de seu viver e de uma vida tão precocemente levada pelas mãos do Criador. 
Assim era Laurinha, portadora de um coraçãozinho maravilhoso, às vezes parecendo uma borboleta a voar sobre as flores de um jardim, como uma estrela a mais no firmamento ou uma beleza das manhãs de setembro, ou ainda, como o zênite em seu ponto mais elevado. Um dia, Laurinha veio a adoecer. O que poderia parecer um pequeno mal estar desenvolveu-se para uma enfermidade que algum tempo depois lhe seria fatal. Foram dias de tormentos, de angústia, de dilacerar corações. Como que anunciando um até breve, certo dia quando se encontrava internada perguntou a sua mamãe: “Mamãe, olha que lindo este beija-flor que está voando no quarto!”. Entretanto, sua querida mamãe não conseguia enxergar aquele lindo pássaro, mas entendia racionalmente que ela tinha a Graça Divina e o privilégio de poder presenciar algo que aos nossos olhos não seria possível contemplar aquela beleza. Naquele instante estava configurado o esplendor de um milagre!
No dia 13 de julho de 2001, por volta de 09.00 h Laurinha, aquela bonequinha de carne, viria a nos deixar aflitos e tristes com seu falecimento. Já não podia pronunciar as palavras que tanto gostava e perguntar por Dedei. Também não poderia mais passear alegre e feliz com sua mamãe pela Praça Dom Epaminondas à procura de seus infelizes amiguinhos, como que desejando levá-los todos para sua casa e a resolver todos os seus problemas. Seu caixãozinho todo branco estava coberto de flores. Eram crisântemos também brancos que cobriam seu corpinho e que simbolizavam a extensão incomensurável de seu amor aos pequeninos desafortunados e aos mendigos que ela buscava encontrar pelas ruas da cidade ofertando um pouco de conforto e esperança. Seu corpo foi velado em sala própria do Cemitério Parque das Paineiras em Taubaté-SP, sendo sepultado na mesma Necrópole no Jazigo da família, localizado no setor 1/S, nº 18. Querida Laurinha! Saudades eternas deste amigo que não teve a felicidade de conhecê-la, mas que aprendeu o legado de toda uma imensidão de amor que somente você soube distribuir.
Requiescat in pace, Anjo da Caridade e da Bondade!


PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA – HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br

AUGUSTO CÉSAR CORTEZ PEREIRA (17)




CANTOR E RADIALISTA



UM INTÉRPRETE DO AMOR

Augusto César Cortez Pereira, o nosso saudoso e eterno Augusto César Guará, nasceu em Guaratinguetá-SP, aos 09 de dezembro de 1951, sendo filho de Germano Manoel Pereira e Djanira Cortez Pereira. Seu pai era um próspero comerciante de uma loja de produtos agropecuários em Guaratinguetá-SP. Mudou-se com sua família para Taubaté em 1962, e desde logo passou a adotar sua nova cidade como a de seu coração. Aqui radicado, estudou e trabalhou. Seus estudos tiveram prosseguimento no Instituto Diocesano de Ensino Santo Antonio, o nosso centenário IDESA, e seu apelido “Guará”, por ser oriundo de Guaratinguetá, foi atribuído pelo Padre Gil Claro, à época, Diretor daquela Instituição de Ensino a seu irmão Jairo José. Por extensão, tornou-se o “Guarazinho”. Muito ativo e voluntarioso, Guará, como passou a ser chamado e conhecido, granjeava a todos pelo carinho, respeito e amizade, marcas indeléveis que o acompanharam em toda sua existência. Nos anos de 1965 e 1966, participou dos programas exibidos pela extinta TV Tupi de São Paulo, “A juventude canta” e “A mais bela voz colegial”, ocasião em que, com seu talento interpretativo e locução maravilhosa, alcançou o merecido destaque dentre os concorrentes. Augusto César Guará iniciou sua carreira artística radiofônica, de ponto a ponto, de degrau a degrau. Como mero locutor de Alto Falante, o chamado “Locutor de Mesa” do antigo Terminal Rodoviário de Taubaté para orientar seus passageiros, passou a apresentador da TV Cidade. Em 1967, em plena “Jovem Guarda” fez parte do conjunto musical “The Yankees” atuando como crooner, engalanando com sua voz magnífica os bailes da antiga Associação dos Empregados no Comércio da Rua Visconde do Rio Branco. Como poliglota nas línguas inglesa, francesa e espanhola, recebeu o tão sonhado convite de integrar o quadro de funcionários da Rádio Difusora de Taubaté, onde, durante muitos anos desenvolveu todo seu potencial de comunicador dinâmico que era. Depois, trabalhou também nas rádios Universal de Caçapava, Itaipu e Cacique de Taubaté, e após três anos de ausência, voltou à sua querida Rádio Difusora, para dali sair somente em virtude de sua enfermidade.

Em 20 de dezembro de 1980, casa-se com a professora e terapeuta Maria Celina Nogueira, que seria sua eterna companheira e seu grande amor. Seus dois filhos Augusto César e Amanda Ketrin, foram suas grandes paixões, como também o Santos Futebol Clube, seu time de coração.  Como merecedor de inúmeros elogios das crônicas escrita, falada e televisada, acabou convidado pelo cineasta Amácio Mazzaropi, culminando com sua participação nos filmes "Jeca contra o Capeta” e “A Banda das Velhas Virgens”, ocasião em que atuou como repórter. Como cantor, era maravilhoso ouvi-lo interpretar “Ave Maria”, “Rosas Vermelhas” e “New York, New York” dentre outras, e como artista do povo, cantava para seu povo. Gravou o hino do glorioso Esporte Clube Taubaté, composto em parceria com o também locutor e apresentador Santos Cursino. Em 13 de Setembro de 2007, recebeu da Câmara Municipal de Taubaté, através do Decreto Legislativo 221/2007, o Título de Cidadão Taubateano, como preito de gratidão por ter durante toda sua vida na cidade que adotou em seu coração, contribuído para torná-la mais feliz e alegre, encantando com sua voz maravilhosa os lares taubateanos, sempre com muita paz, fraternidade e os desejos de felicidades. Augusto César Guará foi uma pessoa muito simples em toda sua existência e de fácil relacionamento para com todos. Toda sua vida foi pautada na prestação de serviços, na informação sempre oportuna e no amor ao próximo.


Em seu ambiente de trabalho e nos intervalos recebia seus ouvintes de maneira fraterna e cordial, dispensando atenção e muito respeito. Augusto César Guará, como todo grande artista, também tinha seu Fã Clube, que na pessoa de sua presidenta e admiradora incondicional Maria Bernardete Eliziário representava todos os milhares de fãs, pela afeição e carinho ao seu ídolo. Na vida pessoal, Guará buscava na caridade exercer seu verdadeiro apostolado de amor ao próximo, com um coração dotado de uma bondade infinita. Quando das visitas à Casa do Ancião Santa Luiza de Marilac, vivia a plenitude de sua felicidade ao encontrar sua sempre amiga dona Luiza. Já alquebrada pela idade com seus quase 80 anos, relegada a uma cadeira de rodas e à mercê de seu próprio destino, levava-a para sua casa para passar um final de semana, um natal, um ano novo. Também, procedia da mesma forma com dona Míriam, portadora de uma cegueira total, a qual viveu com sua família por quatro meses, até lhe conseguir um lugar para morar no Instituto São Rafael de Cegos de Taubaté. Mas a rotina de estar sempre junto aos mais humildes e desamparados não tinha fim. Certa vez confidenciara a sua esposa que mesmo chegando a cantar no Terraço Itália, nada igualava ao prazer de se cantar nos asilos junto de seus "velhinhos queridos". Ao buscá-la para passar finais de semana com sua família, cantava muitas canções com ela, com uma alegria que irradiava felicidade e como se fosse sua mãe. Outro fato marcante em sua vida e no de sua família foi quando do acompanhamento da doença da qual era portador, seu amigo e companheiro de rádio, Israel Andrade, o qual se encontrava nas filas de transplantes e de doadores de fígado. Guará sofria demais ao vê-lo naquela situação, mas, prestava-lhe todo o apoio necessário. Foram anos de compadecimento até que seu amigo, conseguindo um doador, foi submetido ao transplante e ficou curado. Entretanto, muito tempo antes desse episódio com seu amigo, fora um partidário pela doação de órgãos e era seu desejo que assim se procedesse quando de sua morte.


Ao lado de sua inseparável e querida esposa Maria Celina, prestava inestimáveis serviços junto à população nos trabalhos voluntários, ou ainda, levando uma palavra de conforto e carinho aos mais necessitados, pessoalmente ou através das ondas do rádio. Era dotado de um senso de solidariedade fora do comum, prestando inestimáveis serviços a quem dele necessitasse e muito atencioso para com todos, fazendo do amor ao próximo, uma constante e uma abnegação em sua vida de praticar a caridade. Em época natalina, lá estava Guará vestido com as roupas de Papai Noel, com a mesma bondade infinita a levar aos mais distantes bairros rurais de Taubaté, um pouco do espírito do natal e os presentes às criancinhas que ele tanto amava e cumpria com os ensinamentos de Jesus. Guará levava consigo um lema: “Desta vida nada de material se leva, mas sim, se deixa boas lembranças pelos diversos lugares que passamos”. Como discografia, deixou mais de 150 composições e interpretou as mais lindas canções, tais como: Ave Maria; Emoções; De volta ao mar; Cheia de charme; De volta ao aconchego; Ronda; Garota de Ipanema; Rosas Vermelhas; Vou prá Taubaté; Champagne; Meu amor brigou comigo; Meu bem assim você me cansa; New York, New York; Unforgettable; So many things to say; Rock and roll lullaby; C’ant take my eyes off you, Just the way you are; It’s too late; What a wonderful world; Tears in heaven; Feelings; Bach in to the sea; Vem; Sinto; Meu nenê; e, Hino do E. C. Taubaté.

Augusto César Cortez Pereira veio a sofrer um AVC em sua residência em 15 de outubro de 2010, por volta de 20.15 h permanecendo internado no Hospital Regional de Taubaté e em coma até o dia 1º de novembro do mesmo ano, "Dia de Todos os Santos", quando então foi constatada pela equipe médica responsável, sua morte cerebral. Sua voz calara para sempre. A notícia de seu falecimento causou um profundo pesar e muita comoção em toda a cidade. Sua família, com recordações daquele amigo inseparável que lutava para conseguir um doador de fígado que lhe possibilitasse continuar vivendo, bem como atendendo seu desejo de doação de seus órgãos, entendeu por bem autorizar esse procedimento em benefício  às pessoas que deles necessitassem. Seu sepultamento ocorreu no dia 04 de novembro de 2010 as 11.00 h, com uma missa de corpo presente na Igreja Menino Jesus, no Bairro da Independência, onde morava. O cortejo foi acompanhado por uma multidão de fãs, admiradores, parentes e amigos, que com um carro de som à frente entoando “Rosas Vermelhas”, cantava e levava o corpo de seu eterno ídolo até a última morada. Seu caixão estava repleto de rosas, as mesmas rosas que em toda sua vida, soube como ninguém, ofertar. Augusto Cesar Cortez Pereira, Augusto César Guará ou simplesmente Guará, está sepultado no Cemitério Municipal de Taubaté, na 8ª Quadra, Sepultura 96, no jazigo perpétuo da Família Cortez Pereira. 


Requiescat in pace, Grandioso Comunicador! Até um dia.




PROFº GILBERTO DA COSTA FERREIRA - HISTORIADOR, PESQUISADOR E ESCRITOR. COORDENADOR TÉCNICO DO MEMORIAL GENERAL JÚLIO MARCONDES SALGADO.
cfgilberto@yahoo.com.br